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Poesia presente: Claudia Roquette-Pinto
Por Heitor Ferraz

Musicalidade, precisão vocabular e imagens da natureza marcam o trabalho da poeta carioca, autora de “Zona de Sombra

Claudia Roquette-Pinto nasceu em agosto de 1963, no Rio de Janeiro. O sobrenome ilustre, como ela mesma explica, vem do bisavô paterno, Edgar Roquette-Pinto, que foi, “entre outras coisas, antropólogo, cientista, desbravador (em todos os sentidos), além de ser o responsável pela implantação da radiofonia no Brasil”. Num artigo sobre suas múltiplas atividades, o jornalista Ruy Castro o definiu como “homem-multidão”.

Ela cursou letras na PUC do Rio, mais especificamente tradução literária, atividade que exerce desde que se formou. Atualmente também começou a praticar tradução simultânea, mais por necessidade, ela conta, pois como se tornou uma praticante do budismo tibetano, sempre que algum lama aparece em visita, ela se torna a tradutora oficial. Durante o tempo de faculdade, criou o jornal cultural “Verve”, um empreendimento “quixotesco”, como ela define esta aventura editorial que durou cinco anos.

Em 1991, Claudia publicou seu primeiro livro de poesia. “Os dias gagos” -com orelha de Paulo Henriques Brito, que havia sido seu professor na faculdade- já apresentava uma poeta rigorosa, preocupada com a forma, com a construção precisa de metáforas e com o próprio destino da poesia brasileira. Num poema despachado, sobre o suicídio de Ana Cristina César, ela escrevia: “à sombra dos coturnos floresceram uns cogumelos/ e para ter a eternidade é só/ cair sem deixar testamento”. No final, ela arremata dizendo: “você nos desistiu/ nós não te enterraremos”.

Hoje, Claudia acha esse poema um rompante de “ruptura bastante adolescente”, como declarou em entrevista à revista “Oroboro” 1. Adolescente ou não, Claudia já sabia o que queria. E procurava se afastar desse culto nacional aos mortos que não permite uma leitura mais objetiva da literatura.

Em seu livro de estréia, que ela considera imaturo, “já que na verdade é mais um apanhado do que eu sabia fazer e estava fazendo na época do que propriamente um livro com um projeto”, algumas características de sua poesia posterior já se fazem notar.

A primeira coisa que se percebe é a musicalidade. Claudia tem um ouvido fino para a cadência do poema, como já observava Paulo Henriques. Depois, a precisão vocabular na construção das metáforas. E, por fim, a presença de imagens da natureza, principalmente de flores. Muitas flores, que acabam por perpassar toda a sua obra e com forte significado.

Num poema, ela descreve todos os barulhos de um jardim (o poema se chama “no jardim”), inclusive os inaudíveis, como o momento em que o “crisântemo fulmina/ num amarelo que dói dói dói”. Parece que neste poema ela deixa uma pista sobre sua poética, ou seja, a maneira como naquele momento ela pensava a poesia: “o silêncio estrila e me espeta.// eu escuto o que tem que ser dito”.

Esta beleza que ainda surge numa profusão de poemas (com grandes lances, como em “tarde no mojave” ou “visitação da morte”) será depurada alguns anos depois no livro seguinte, “Saxífraga”, de 1993 (ed. Salamandra). Nele, as flores começam a ganhar relevo desde o título do livro. Ou melhor, já na capa, onde se pode ver um detalhe do quadro “Flower Still Life”, de 1700, pintado pela holandesa Rachel Ruysch, considerada uma das mais importantes pintoras do gênero. São flores ampliadas, e uma abelha no miolo de uma das flores.

- Não sei explicar porque minha poesia se enreda tanto com as flores. Só sei que foi assim desde sempre. Será que tem alguma relação com o fato de eu ter crescido numa casa com um jardim grande, a casa dos meus avós? Ou por que costumo passar grandes temporadas numa fazenda?

De qualquer forma, independente da resposta, Claudia prefere deixar a questão “no campo do desconhecido”. Mas reconhece que as flores brotam e rebrotam em sua poesia. E, se não for exagerar a nota, não só as flores, mas a natureza-morta é um dos seus motivos mais recorrentes.

Em belos poemas, ela faz referência a este gênero de pintura que ganhou força no século 17 e que continua sendo praticado até hoje. Claudia -seguindo a lição de Bandeira, em seu “Maçã”- descreve uma berinjela, no poema “bãdinjâna”. Depois, um tomate, em “tomatl”. Nesse jogo, ela vai aproximando os frutos ao corpo, como em “castanhas, mulheres”. Apesar de não aparecerem em seqüência dentro do livro, algumas páginas depois, ela penetra camadas de quadros de Frieda Kahlo e das flores vistosas de Georgia O’Keeffe, fazendo com que dos frutos nasça o corpo em toda plenitude.

– Neste livro –diz ela–, eu estava investigando, ou melhor, tentando acompanhar com o poema vários tipos de movimento de aproximação, desde os mais óbvios, como, por exemplo, o da abelha com a flor, o de um homem com uma mulher (de aproximar-se e ser convidado a penetrar num mundo desconhecido, e não apenas no sentido literal, genital, dessa idéia) ou o do pintor (ou da pintora), com seu tema etc.

Este jogo de aproximação representa, para ela, “o movimento do poeta (ou da poeta?), tentando chegar junto de um cerne, um sentido que é, por natureza, fugidio e, talvez, por isso mesmo, extremamente sedutor; gostaria de pensar que, como poeta, posso não precisar me perder de todo desta criança que se debruça para examinar a vida prodigiosa que palpita infinitamente dentro dos frutos, para citar Bandeira. Veja só o poema ‘tomatl’. A propósito, ‘Maçã’, de Bandeira, é um dos meus poemas favoritos (e quase foi uma das epígrafes do livro...)”.

E o poema de Bandeira, de fato, ecoa por dentro de vários poemas de Claudia...

Claro que não é só a natureza –com flores, frutos, saxi ou sexifragâncias (para lembrar um poema de Drummond – que habita esta poética. Há, neste livrinho magro, de 40 páginas, outros momentos fortes, como, por exemplo, os poemas de seção “ele:” ou um poema descritivo como “space-writing (sobre foto de man ray)”:

para escrever no espaço: o
arco do braço mais
ágil que o sobressalto
das idéias em fuga (tinem
os cascos)
o traço
que as mãos no encalço (desa
tino de asas) percursam:
circunvoluções do
improviso na moldura
findo o lapso resta
em claro (i
tinerário de medusas)
a escrita que perdura para o
espasmo o “olho armado” o
rapto
do obturador

Os poemas de Claudia nem sempre são fáceis de desvendar -mas o leitor sente, na pele, uma sedução que vem com as palavras, como a maneira como ela arma o poema. O leitor, como Man Ray escrevendo num vidro, busca as “idéias em fuga”, o “improviso na moldura”.

– Num certo sentido, a minha maneira de encarar a poesia não mudou muito, não –conta Claudia.– Acho que isso se deve a dois fatos: o primeiro deles é que escrever poesia sempre foi algo muito vital para mim, uma atividade que executo por necessidade, uma coisa quase orgânica (e a título de brincadeira, gosto de citar, a esse respeito, um comentário escatológico do Auden, que diz que os poetas gostam de seus próprios poemas, assim como as pessoas em geral costumam gostar do cheiro de seus próprios gases...). O segundo é que, no meu processo de escrita, existe um grau de indeterminação, uma certa “inconsciência”, que está sempre presente, e a qual me habituei a seguir sem questionar, mais ou menos como quando estou fazendo uma leitura de tarô para alguém. Preciso de uma completa disponibilidade interna para que a coisa se dê. E sei que, se ficar por demais atada a um “objetivo”, essa naturalidade irá se perder. Embora, é claro, que eu geralmente tenha uma “meta”, melhor dizendo, uma vaga idéia do que quero obter com aquele ato de escrita. Mas há sempre uma infinidade de fatores que se interpõem, alguns deles acidentais, mas todos sempre internos ao poema, que acabam me levando numa direção diferente, insuspeita a princípio. Em suma, para tentar responder à sua pergunta: sei que ao escrever estou tecendo uma urdidura, mas não é apenas a minha mão a fazer o trabalho.

Depois da pesquisa das coisas, dos objetos em foco, descritos com precisão e atenção, Claudia publicou um livro que parece ser daquelas obras fundamentais e de passagem, que concentram uma crise e a sua solução. Trata-se de “Zona de sombra”, que saiu em 1997, pela editora 7 Letras. É um livro em que a própria poesia parece ocupar o centro de toda atenção. É o momento de uma reflexão cerrada sobre o ato da escrita. Talvez venha daí a sua complexidade.

Diz ela que nesta época se encontrava apaixonada pela poesia de Georg Trakl, Hölderlin e Paul Celan. Apesar de tudo, os poemas não são sombrios -como o título poderia sugerir. Claudia abre com uma epígrafe de Paul Celan: “Dê também sentido ao seu dito:/ dê-lhe a sombra”. O livro então, como notou Marcelo Sandmann, no ensaio “Cepas resistentes à droga da vida” 2, vai transitar entre a penumbra e a luz, entre o dito e o não-dito. Como se Claudia aceitasse a “indeterminação” do poema, como ela havia falado. Ou ainda, como ela própria escreve em “a caminho”: “meu enxame de equívocos”, lembrando aí as ambigüidades criadas pelas imagens num poema.

Um dos poemas mais lindos deste livro é, sem dúvida, “cadeira em mykonos”, com a descrição de uma cadeira pela sua própria ausência. É como ver pela sombra, como o título do livro sugere (e mesmo a obra escultórica de Cristina Rogozinski, usada como ilustração de capa, nos leva para este caminho, ao apenas esboçar as bordas de uma tigela). Vale a pena transcrevê-lo aqui:

I

nela não se auréola, nem é falsa
a idéia, que dela se alça,
como o fogo da lenha
um grego, aliás, quem a
aprisionou, como a um inseto
sobre a camurça-conceito:
na língua, terceiro objeto,
menos cadeira, se a escrevo
tampouco devo (se a quero)
nos arrabaldes das sílabas
buscar madeira de mobília
preciso (para que a tenha)
adestrar-me ao negativo,
do branco contíguo
da parede, hauri-la
como figura: literal
(modo-de-éden) nua
entre lençóis de cal

II

ícaro sem penas
noiva muda em cendais de secagem rápida
quadrúpede engendrado para solidões

Pela leitura deste poema, é possível perceber o uso denso que ela faz das metáforas, das imagens que chegam para construir uma ausência, além da precisão na escolha das palavras. Armar toda essa urdidura não é tarefa fácil –é, pelo visto, uma conquista lenta, como quem vai navegando um rio com todas as agruras do caminho, como se pode ler no poema “a caminho” (que ecoa Guimarães Rosa aqui e ali), deste mesmo livro:

estava a caminho: canoa
comprida-boa partindo
a sombra, a meio-e-meio, no rio
silêncio-cutelo e, certo,
o dia aberto seu ventre
azáfama de zangões urgentes)
cego.

– A minha sensação, ao tentar escrever um poema, é sempre a de uma “caçada”, uma aproximação. Quando a idéia do poema aparece na minha mente, procuro me pôr em total disponibilidade (infelizmente nem sempre isso é possível) e fazer o menor “ruído”, o menor movimento possível, digamos assim, para não espantar o bicho. Já usei algumas vezes a comparação com uma cena do “Mowgli”, o desenho animado do Disney, para me referir ao poema. Na cena em que o tigre é apresentado, quando ele entra na história, não é visto logo por inteiro, mas através de uma floresta de bambus. O que vemos primeiro, então, são aquelas listras amarelas e pretas se movendo, sorrateiramente, no meio do bambuzal. Só depois é que o tigre, em toda a sua plenitude, aparece. Pois escrever o poema, para mim, é exatamente isso: ver as listrar passando por entre os bambus e tentar, a partir delas, enxergar (e dar a ver) o tigre inteiro, já sabendo de antemão que o poema será tão-somente o resultado fugaz e aproximado deste relance.

Zona de Sombra” representa a maturidade poética de Claudia. É um livro que surpreende a cada página, a cada poema. Não que os poemas sejam fáceis. A escrita de Claudia se enovela diante do leitor, provoca (“o intuito é provocar a quem está escutando”, como se pode ler em “colar”) e volta a se enredar, como ela diz em “esta” (um dos poemas mais bonitos do livro):

que ensimesma
pétala que volteia
idéia que embaraça
à pela, em novelo
segredo a desenredar
desde o centro, corpo adentro (...)

Em relação aos livros anteriores, este tematiza bastante a própria poesia –traço que já estava presente desde o primeiro livro, mas que aqui se torna uma necessidade maior, para encontrar uma poética, uma maneira de dizer a sua presença no mundo. É um momento em que a reflexão sobre a poesia se adensa e prepara para o vôo mais amplo e mais contundente de “Corola”, livro que sairá em 2000 (Ateliê Editorial).

– “Zona de Sombra” foi um livro no qual o meu desafio era falar de um processo de abordagem do mundo (no caso, a poesia), que não está, de forma alguma, dissociada da vida, mas imersa nela-, sem abrir mão de uma certa “penumbra”.

A procura da poesia registrada em “Zona de Sombra” prepara o terreno para “Corola”, lançado em 2000, pela Ateliê Editorial. As flores ganham um significado mais amplo, abarcam outros problemas que não apenas diretamente os do corpo (da comparação das formas florais com as formas do corpo) e do desejo, nem as aproximações e os detalhes de exuberante beleza. Elas ajudam a representar um mundo fechado –em alguns momentos, claustrofóbico.

A própria Claudia relatou em entrevista 3 que este livro é o “deságüe de várias experiências dolorosas –entre elas o seqüestro da minha única irmã (felizmente, com a volta dela, na íntegra, tanto física quanto mentalmente) e depois de um período de ‘retiro’ de quatro meses numa fazenda fora do Rio”.

O livro quase que inteiro parece que foi escrito dentro de um quarto, ou de um jardim fechado a quatro chaves, onde os ruídos da rua pouco ou quase nada penetram. Quando penetram, não são suficientes para romper o confinamento doloroso da voz poética -e esse sentimento perpassa todos os poemas, inclusive os que se querem contemplativos.

A contemplação será a partir daí sempre difícil, sempre suspensa por algo que a impede. Logo no primeiro poema, isso já fica bem evidente: “O dia inteiro perseguindo uma idéia:/ vagalumes tontos contra a teia/ das especulações, e nenhuma/ floração, nem ao menos/ um botão incipiente/ no recorte da janela/ empresta foco ao hipotético jardim”. Diante desta barreira, em que nada brota, nada surge, o “eu lírico” resolve, então, descer no “poço do silêncio”, quase que numa anulação de si mesmo (“Longe daqui, de mim/ (mais para dentro)”). Esse sentimento se repete dentro do livro, várias vezes (“na tarde igual a todas as outras”, como ela escreverá em outro poema).

A natureza que a cerca não é mais a da revelação, mas é a que pontua o ambiente fechado. Num poema bastante representativo deste livro, podemos ler:

Amor-emaranhado, labirinto
apartado de mim pelo fôlego das rosas,
pensas, no jardim.
Dos pés na grama me ergue um calafrio,
e tudo é muro, palavra que não acende
neste anelo em que me enredo.
Para que tijolos, toda esta geometria,
que faz da paisagem um deserto de cintilações espontâneas?
De linhas retas apenas
o fio que desenrolo,
exausta embora atenta,
sem conhecer a mão
que o estende na outra ponta.

A poesia, neste livro, parece ser a salvação (“na borda das palavras,/ tentando não morrer”; ou “minha voz âncora”; ou “Escrita/ é sempre você que me resgata/ do limiar do iminente nada”). Diante de um mundo que se fechou, que impede a contemplação, a poesia vira âncora, apesar do cansaço da poeta -“exausta embora atenta”.

É também bastante significativa a presença de dois poetas românticos como Novalis e Wordsworth. No romantismo, a natureza é o espaço por excelência da reflexão e da meditação. Num poema muito bonito, um dos mais tocantes, a poeta fala de uma noite em que ela ficou imprimindo o “Hinos à noite”, de Novalis. E de como aqueles poemas chegavam, 200 anos mais tarde, ainda vivos, ainda úmidos. É um dos poucos momentos em que o prazer (aqui, o prazer da leitura de um grande poeta) irrompe nestas páginas -mas com melancolia.

a Novalis

Ainda úmidas sobre a folha,
orvalho escuro que pousa
na pele,
imperiosa e nua.
Mal desgarradas da pena,
cada pequena curva
tatua as idéias na superfície ácida.
Isto imagino,
se te vejo debruçado
sobre a mesa penhasco
olhos anoitecidos
despencando no hiato das ventanias.
Isto, enquanto imprimo
os teus Hinos à noite
nestas folhas ordinárias,
palavra por palavra coagulando
na brancura ininterrupta, saídas
da boca da máquina
como uma carta pela fenda da porta
duzentos anos mais tarde e
úmidas, ainda.

Este confinamento –que é o do homem contemporâneo– faz com que a poesia mude, a sensibilidade mude. Ler um poeta 200 anos depois é registrar uma nostalgia da contemplação hoje barrada.

Pelos poemas mais recentes, publicados aqui e ali, em revistas, percebe-se que o mundo de fora, da vida cotidiana e dos fatos, que é o mundo que entra em conflito direto com a contemplação, passa a circular mais intensamente na poesia de Claudia, criando ruídos e atritos em sua “hipotética” natureza-morta.

Neste ano, Claudia participará de uma mesa de poesia na Flip (Festa Literária Internacional de Parati) e promete, para logo, a publicação de “Margem de manobra”, reunindo seus novos poemas, livro que, segundo ela, já está prontinho.

***

Antologia pessoal

de “saxífraga”:

bãdinjâna (a beringela)
tomatl
os frutos da terra (frieda kahlo)
space-writing
ele:

de “zona de sombra”:

no teatro
voz
fósforo
no éden
em surdina
chama

de “corola”:

Suspenso na rede do sono...
Sob o fermento do sol...
Conhecer,
Teia de aranha, galho seco da roseira,
Escrita,
O que mora em minha boca
O náufrago

***

Poemas de Claudia Roquette-Pinto

E ela soube que tinha sido atravessada por uma trilha luminosa, varada, instantaneamente, de um quadrante ao outro, por um clarão fugitivo que o pensamento só podia seguir no encalço.

E o que havia ali para ser entendido, era o corpo que entendia – num viés absolutamente novo, onde as imagens se estendiam sobre as sensações – ou, antes, se enlaçavam a elas. E a culminância para onde ela (em cada um dos seus corpos) convergia, ao abrir-se em pétalas, tornava inseparáveis a queda aniquiladora do seu próprio corpo, entregue ao corpo que estava ali, e o vislumbre, simultaneamente doce, do outro corpo, ausente.

Opaco

Obscura aurora desse corpo
na luz desacordada.
O que, além de mim, desperta
no quarto vago, vaga
entre a onda iluminada sobre a hortênsia
e o pensamento, opaco:
mais um dia a atravessar do avesso,
comendo pelas beiradas
a papa fria das conversas,
as caras de tacho e borracha
chapadas contra o meu céu
(onde bóiam as coisas de verdade:
espirais de fogo,
sua boca contra a minha,
as palavras do sonho, que perdi).

Margem de manobra

Eu me cubro com o A da palavra farpada
eu me cubro com o A que traslada
(e a memória é a ignição de uma idéia
sobre dunas de pólvora).

Eu me deito na décima-terceira casa,
eu me deito sob a letra de mãos dadas
M: escondo entre escombros
o sentimento que sobra.

Isto, sim, me comove,
o anel, quando soa
e engloba, envelopa,
remove a pessoa
- letra O, de vertigem e pó,
que soçobra.

Eis o despenhadeiro,
gargalo da fera,
eis o R que trai, apunhala,
desterra – eis o último tiro
sem margem de manobra.

Poesia Presente: Tarso de Melo, por Heitor Ferraz

Heitor Ferraz
É poeta, autor de "Coisas imediatas" (Coleção Guizos, Ed. 7 Letras), que reúne toda a sua poesia até agora.

1 - "Oroboro - Revista de poesia e arte", nº 3, março/abril/maio de 2005. Editada em Curitiba e distribuída pela Iluminuras.
2 - Idem.
3 - Idem.

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CLAUDIA ROQUETTE-PINTO
Rio de Janeiro, RJ – 1963

Há duas maneiras completamentares de ler a poesia de Claudia Roquette-Pinto: enfocando o modo pelo qual ela foi construindo uma linguagem própria e vendo-a como representante de uma poesia “feminina” que se afirma justamente pela superação das determinações de gênero.

O que logo chama a atenção na sua obra é que nela praticamente não há referentes que permitam supor totalidade exterior ou interior: ela não fala de estados de espírito, de acontecimentos prosaicos ou traumáticos, de dores ou amores; sua poesia não descreve locais (uma cidade, uma casa ou mesmo um quarto) nem pessoas. E, no entanto, tem uma intensidade subjetiva que se dá justamente por seu esforço de objetivação.

Não por acaso, um dos temas recorrentes de Claudia Roquette-Pinto é a estrutura ao mesmo tempo complexa e dedicada da flor – como aparece no título de dois de seus livros: Corola (2000) e Saxífraga (1993), esse último inspirado em versos do poeta norte-americano William Carlos Williams (“Saxífraga é a minha flor que fende/ as rochas”). A flor, aqui, nada tem a ver com metáforas desgastadas; não se refere a algo que está para além do poema, mas é o “correlato objetivo” 8 da linguagem, que recua diante de um mundo dissolvente para restaurar, no microcosmo da poesia, uma frágil perfeição. Seus textos falam de gotas de suor ou orvalho, da superfície da pele, da luz, filtrada por persianas, da “trama de arabescos da colcha”, de “feijões arrancados da fava” – enfim, de pequenas estruturas que, como os versos de um poema, são recortes do mundo em que ainda é possível encontrar harmonia e equilíbrio.
Seus poemas parecem regidos por uma lógica alheia à leis da língua ordinária : “palavra-persiana/ poema-lucidez/ imanta o ar fora do cômodo/ das frases/ um outono/ rente à janela/ ouro tonto sobre a tarde derrubada” – escreve ela em “Vão” (de Zona de Sombra, 1997). Mas o hermetismo aqui é a conseqüência natural de um mundo em que “o pleno não existe mais”, conforme um dos fragmentos de “ Cinco Peças Para Silêncio”.

Não existindo mais vivências comunicáveis, só lhe resta “mudar de logradouro – ou de logro/ que isso de escrever é um jogo”, sentencia ela num dos últimos poemas de Corola. E essa mudança diz respeito tanto à própria Claudia Roquette-Pinto quanto a uma geração de escritoras que viveram o refluxo dos ideais feministas de emancipação e dos ideais de autonomia do sujeito tout court.

É notável como em várias poetas surgidas nas décadas de 80 e 90 – Lu Menezes, Janice Caiafa, Ângela de Campos, Jussara Salazar – há um mesmo movimento de recuo desencantado diante do mundo objetivo e de busca de uma escrita metalingüística que cria seus próprios referentes, redescrevendo o mundo. Como escreveu Heloísa Buarque de Hollanda no prefácio a Corola, trata-se de “uma poesia vivida como o único e último espaço de liberdade possível para uma geração que aprendeu a amar sob o efeito da Aids, do pânico, da violência, da imagem brutal dos excluídos”.

Principais obras: Saxífraga (Salamandra, 1993), Zona de Sombra (7 Letras, 1997), Corola (Ateliê, 2000) Literatura Brasileira Hoje (2004), de Manuel da costa Pinto, publicado pela Publifolha)

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DICIONÁRIO CRÍTICO DE ESCRITORAS BRASILEIRAS
Nelly Novaes Coelho

(2002, SP, Escrituras)

Poeta, tradutora de poesia, elemento atuante no meio cultural e editorial carioca, Claudia Roquette-Pinto nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1963. Formada e, Tradução Literária (PUC-RJ), profissionaliza-se como editorialista, ficando à frente do jornal cultural Verve, durante cinco anos. A partir do final da década de 1990, intensificou sua atividade como tradutora de poesia. E está preparando uma antologia de mulheres latino e norte-americanas do século XX.

Descobriu-se poeta ainda muito jovem. Entrega-se à leitura e tradução de grandes poetas e, ao estrear em livro, em 1991, com Os dias gagos, já está de posse de uma arte amadurecida, uma arte consciente de si mesma. O fluxo poético (constantemente bloqueado em seu fluir) desdobra-se em pequenos blocos de significados ambíguos, em torno de diferentes motivos ou estados de espírito (os dias gagos / vácuo / trips / quartos crescentes / visão e tato). Blocos independentes que, em conjunto, resultam em um verdadeiro caleidoscópio urbano, uma montagem em videoclipes. Mas a aparente dispersão desses blocos poéticos é anulada pela problemática que energiza a matéria poética: o possível/impossível lugar da poesia neste nosso mundo em crise.

Tal problemática já se anuncia no título do volume: Os dias gagos e também no verso-dedicatória posto na abertura: A todos poemas ausentes corando no tempo. Metaforicamente, a poeta aponta para o principal nervo de sua criação poética: a crise de valores que o mundo atravessa e que se manifesta, fundamentalmente, pela crise da linguagem, há muito em processo: nuvens sem projeto (...) a luz das frases já não tem feitiço; custa o tempo de um tropeço / lapidar uma palavra...

Liberta da ordem convencional da linguagem, a imaginação poética entrega-se ao seu próprio dinamismo, sem os freios da lógica. Daí que se torne difícil qualquer comentário ou exegese dessa poesia, sem ligá-la ao contexto cultural/existencial em que foi engendrada. Ou melhor, sem situa-la dentro da atual crise da linguagem, gerada pela crise dos valores, ainda em processo. Lembremos que a palavra – meio essencial de comunicação – entrou em descrédito no decorrer do século XX, aparentemente superada pela imagem e pela comunicação multimídia. Daí a “gagueira” dos nossos dias, metaforicamente denunciada pela poeta. Onde a palavra essencial? Como ouvi-la (se é que existe) em meio ao som e fúria de nossa aldeia global?

Na verdade a poesia ( a literatura e a arte em geral) surge hoje como algo paradoxal: um fenômeno ou objeto aparentemente inútil para o viver humano (em meio ao mundo consumista e absurdo que se nos impõe, como realidade) e , ao mesmo tempo, pressentido como visceralmente essencial para a vida autêntica (como possível caminho de fuga à esterilidade da bela/horrível engrenagem do mundo atual). Não por acaso, a poesia de Claudia acolhe em suas dobras sombras tutelares da poesia feminina do século XX: Sylvia Plath e Ana Cristina César, autênticas vozes celebrantes dessa poesia-consciente-do caos- e que, por ele, foram imoladas.

(Sylvia) palavra sem raiz / mergulha na limpidez

Ana Cristina aflige: musa inútil (...) o fato é que / ana c. /o tempo não coube a você (...)salve, e adeus, mana cristina césar: você nos desistiu, / nós não te enterraremos.

Como numa corrida de revezamento, os/as jovens poetas prosseguem levando o bastão, empenhando-se, por sua vez, em deixar a marca de seus passos numa poesia que seja testemunho destes tempos de apocalipse e gênese. Ou como a definiu Heloisa Buarque de Holanda: Uma poesia vivida como o único e último espaço de liberdade possível para uma geração que aprendeu a amar sob o efeito da Aids, do pânico, da violência, da imagem brutal dos excluídos. (in Corola)

A essa geração, pertence Claudia Roquette-Pinto. Poeta da década de 1990, ela se insere na vertente dos que buscam algo além do brilho das aparências ou da vida como performance, e se sentem vivendo como que num intervalo de um possível viver autêntico. Ou num tempo como que suspenso... num hiato... no qual os poemas estão corando no tempo, Á espera de que sua gestação se cumpra. Mas enquanto isso não acontece, paradoxalmente, só resta à poeta um gesto: fazer poesia (mesmo sem raízes ou sem alvo para atingir), para alimentar a vida.

Março me deserta como se eu fosse um átrio (...) dos teus lábios caem apenas – tarde! Frases amarelas / se desisto do poema empalidecem as peras (...) porque se o poema me habita: há um céu de mil janelas.

A metaforização é clara: março é a estação (ou o tempo) da colheita, mas esta é negada à poeta (março me deserta). Simultaneamente, uma vez ausente o poema, empalidecem as peras. Sendo a “pera” um dos fortes símbolos eróticos (no livro, reforçado pelas ilustrações da capa e da contracapa) facilmente se deduz a natureza erótica, atribuída aqui à força criadora que desencadeia o ato poético: Se o poema me habita: há um céu de mil janelas. Como se vê, a fusão poética (poeta + poema) é vivenciada como fusão erótica (eu + outro), pois ambas levam à plenitude existencial mais intensa.

Essa é uma das forças-motrizes da poesia contemporânea, a identificação do ato poético com o ato erótico, vistos como poderosos agentes de criação ou de transformação do real. Na poesia de Claudia, essa força-matriz é onipresente. Em Saxífraga (1993), seu segundo livro, a crença nessa força se anuncia já no título: ao identificar a poesia com a saxífraga (espécie de flor que quebra ou fende a pedra), a poeta enfatiza o poder invisível da poesia: algo aparentemente abstrato, inefável, mas capaz de derrubar muralhas ou de criar mundos.

Poesia conscientemente intertextual (que se sabe o elo de tantas e tão longínquas correntes), a de Claudia funda-se aqui no verso de William Carlos William (1883/1963): Saxífraga é minha flor que fende / as rochas. Não por acaso se dá esta aproximação entre a sua poesia e a desse poeta norte-americano, das primeiras décadas do século XX. Vivemos um momento de reinvenção do passado. Neste caso, embora a ótica de ontem (dos poetas imagísticos ou objetivistas, com quem William Carlos se identificava) já não coincida com as óticas de hoje (como rotulá-las?), permanece entre ambas algo comum: o viver a poesia como paixão e o atribuir à palavra poética o poder de revelar o real autêntico (para além das convenções e preceitos que o deformaram). Voltado para os contrastes da paisagem urbana e para a vida moderna crescentemente desumanizada, William Carlos incita o poeta a ir além da objetividade das imagens: Arranque um canto desses fatos / tire-o concretamente. Ou ainda: Ele escuta / mas não percebe nem a menor sílaba surgindo desse rumor confuso / e o sentido de tudo lhe escapa. (Paterson. Livro II).

Como se vê, a natureza da busca, hoje, é a mesma. Inclusive, a tentativa de eliminação de fronteiras entre as artes (que foi marcante nas vanguardas do início do século XX), volta a ser uma tônica na multifacetada estética deste limiar do século XXI. William Carlos leu poeticamente algumas telas ( Brueghe!) e tapeçarias ( La Dame à la Licorne) famosas. Embora de modo inteiramente distinto, Claudia, em Saxífraga (no bloco olho armado), lê, em poesia, telas de Picasso, Mont, Calder, Much, Frieda Kahlo, Chagall e outros. Não uma leitura descritiva do visível fixado pelo pincel, mas a que interroga o momento de criação ali fixado para sempre. Interrogação fundada na frase de Cézanne posta em epígrafe: Pintura é a natureza vista através de um temperamento. Porém, ao tentarmos decifrar essa visão, o essencial permanece oculto. O essencial permanece na Zona de sombra (1997) que Claudia sonda em seu terceiro livro. E cuja chave ela nos dá na epígrafe de René Char: Só podemos viver no entreaberto, / exatamente sobre a linha hermética / de partilha da sombra e da luz. É nesse limiar ambíguo que se forja essa enigmática poesia (ou prosa) e sua sarabanda de imagens claroscuras, engendradas por uma ótica quase barroca.

O centro – negro palimpsesto de escuridão, camadas de preto confundidas (...) ao redor, ilhas de cor, elétricas, sazonadas pela imaginação dos poetas. (...) toda equação existe, toda superfície pintada só roda e translada por causa desta idéia, que não se equivoca: o centro negro (...) magma, fruto de treva, estrela de não-cor de densidade máxima! A ti resta engolfarmos ou explodir.

Em suas múltiplas ressonâncias, labirintos, imagens e gradações, o universo poético que vem sendo engendrado por Claudia Roquette-Pinto, é dos que exigem determinadas chaves que possam abrir seus portais de enigmas. Talvez uma das principais, como já dissemos mais atrás, seja o paradoxal corpo-a-corpo com a poesia, vista por um lado como a possível ponte entre o homem e a descoberta do sentido último da vida, há muito perdido, e, por outro, como meio ambíguo, potente e impotente para expressar o ainda não-conhecido e intuído pelo poeta.

Em Corola (2000), essa problemática se desdobra em imagens e metáforas que se entregam quase amorosamente ao leitor, praticamente despojadas do hermetismo. Novamente, a problemática-chave se anuncia no título. Lembramos que conhecemos e fruímos a beleza da flor pela Corola. É, pois, o seu exterior que nos seduz. A sua essência, o seu cerne, a sua verdadeira razão ou causa de existir como tal, nos permanece oculta ( e só desvendada pelos saberes da Botânica). Da mesma forma, o nosso conhecimento do mundo, dos seres e de nós mesmos está praticamente reduzido à corola (ao que é visível). Descobrir a essência, a idéia que legitima esse visível é um dos grandes desafios do nosso tempo.

O dia inteiro perseguindo uma idéia: / vagalumes tontos contra a teia / das especulações (...) Longe daqui, de mim / mais para dentro / desço no poço de silêncio / que em gerúndio varo madrugada (...) e é tudo de que disponho meus pés se cravem / no rosto desta última flor.

É no dentro silencioso do eu, que a poeta pressente estar a idéia, o cerne do conhecimento procurado: mas, afinal, não encontrado, pois só o rosto ( o exterior ou a corola) desta última flor (poesia) é desvendado.

Poesia que se assumiu como matéria-prima do poema, a de Claudia Roquette-Pinto não se reduz a elucubrações formais, metalingüísticas, mas tenta ir além da preocupação com a forma: tocar/iluminar o húmus oculto que alimentaria a vida e a legitimaria, revelando sua possível ordem, ainda oculta pelo caos.

Escrita / é sempre você quem me resgata / no limiar do iminente nada / que borbulha / em camadas de pensamentos perigosos/ e palavras, cepas resistentes à droga da vida.

Ou ainda

(Poesia) Por que você me abandona / no vértice da vertigem / quando a chuva cai (um Magritte) / sobre rodas que desistiram? (...) Palmilhar às cegas / um quarto de veludo / onde o espelho, mudo, assiste / à fuga do que reflete.

Estamos num limiar... aguardemos que a luz da poesia possa logo iluminar a nova ordem que, com certeza, está sendo engendrada no lado da sombra. Poeta que se vem destacando entre os novos, Claudia Roquette-Pinto tem inúmeros poemas incluídos em antologias nacionais ( Outras praias – 13 poetas brasileiros emergentes. SP, 1998 e Esses poetas – poetas dos anos 90. Rj,1998) e internacionais (Nothing the sun could not explain – 20 contemporary brazilian poets. Los Angeles, 1997: Norte y Sur de la poesía Iberoamericana. Madri, 1997)

Publicações: Os dias gagos, 1991 ; Saxífraga, 1993; Zona de Sombra, 1997 e Corola, 2000

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