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ZONA DE SOMBRA | 1997

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:: Cadeira em mykonos
:: O porvir
:: Em surdina
:: Chama
miolo

Tela

     o centro negro - palimpsesto de escuridão. camadas de preto confundidas, tisne sobre tisne até o oclusivo, último negror. ao redor, ilhas de cor, elétricas, sazonadas pela imaginação dos poentes. flutuando de por-sobre, em bandos nativos, uns grifos, asteriscos de nanquim. seus gritos, que ao ouvido inspirariam: cautela.
     toda equação existe, toda superfície pintada só roda e transladapor causa desta idéia, que não se equivoca: o centro negro. mas ele não se dirige aos olhos de quem o contempla - aos olhos sem sono, sem cílios, aos olhos lívidos que insistem e à boca, intermitente, que invoca: portal, ó flor inversa, bocejo de escuro a tragar quem te discerne! magma, fruto de treva, estrela de não-cor de densidade máxima! a ti resta engolfar-nos, ou explodir.

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Cadeira em mykonos

I

nela não se auréola nem é falsa
a idéia, que dela se alça,
como o fogo da lenha
um grego, aliás, quem a
aprisionou, como a um inseto
sobre a camurça-conceito:
na língua, terceiro objeto,
menos cadeira, se a escrevo
tampouco devo (se a quero)
nos arrabaldes das sílabas
buscar madeira de mobília
preciso (para que a tenha)
adestrar-me ao negativo,
ao branco contíguo
da parede, hauri-la
como figura: literal
(modo-de-éden) nua
entre lençóis de cal

II

Ícaro sem penas
Noiva muda em cendais de secagem rápida
Quadrúpede engendrado para solidões

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O porvir

cavalo de vidro, não
de transparência imediata:
opalino
breve, não era, quanto o cristal
antes, as ancas             esferas
brancas (como em paolo ucello)
avança
crina sem rédeas
patas que espanam
no carrossel do pó

(para quê,
cavaleiro acre,
encolher-se na avalanche do galope
- no ouvido um presságio de cacos -
cada vez que os cascos o golpe?)

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Em surdina
(para um balé de balanchine)

I

ela pode voar
(ele acredita)
no movimento
que desamarra dentro
- de' entre os braços
que um necessário apolo
ergueu a tempo para essa alegoria -
como se denso
embora leve
detendo-se o corpo se desse
em asas
- asas ao inverso,
que nela o vôo
não alça: desata -
como se um vento (ou
o que, íntimo, levita)
soprando de dentro
sobre a água fixa da platéia a erguesse
antes mesmo
que os dedos-palafita
de um parceiro a tocassem
(como tocam agora) as
costelas
onde um par de asas se agita

II

o corpo um arco
encordoado para fugas
(ou será ela
a própria flecha
Que dispara?)

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Chama

as tulipas acenderam
- espadas, coroas,
cabelos -
seu ruído no quarto.
na cama sem repouso
um rosto avesso ao rosto
intransigente, do espelho,
busca equilíbrio
sobre o cânion dos lençóis
paira, fogo contido,
gêmeo do incêndio das flores
ardendo em contínuo
silêncio,
no halo da lucidez

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© 2006 claudia roquette-pinto | contato