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OS DIAS GAGOS | 1991

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miolo

Blefe

pois esse é o mês bastardo, azinhavre
engole o que há de doce nos metais
silêncio embaça a pele dos diários
lençóis têm cor de áridos lençóis

existe azul, mas é um azul de asma
que a nitidez da tarde faz em cápsula
espelhos só devolvem olheira e pragas
um gesto que de fácil despedaça

catódica essa luminosidade
estranha o sol repele o sol. intacto
o tique que quedou meus dias gagos

a rima fica lívida nos lábios
e dor sem voz passeia o seu contágio
um gato eletrifica. arrisco maio.

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Tranco

dezembro mais e mais irreversível
os dias mudos arrastando os pés
o ar estala uns dedos de delito
voltagens arrepiam pelo mês

desejos já sem gás bóiam na lista.
a íris dos grumetes nos sinais.
e todas as agendas em uníssono
vomitam compromissos. algum jazz

imita o gesto o metro o nosso ritmo
pra olhos macro num arranha-céu
enquanto rostos roxos de fuligem

despencam e desviam pontapés.
às vezes um grafitti um teco um grito.
será que eu mudei? ou os natais?

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Gênesis

ninguém diz: cor de mormaço o teu pelo
nem das amêndoas sabem o talismã
um hall de hotel e o maître toma arsênico
veludo e espasmo têm o mesmo efeito

no beco vi umas bananas ardendo
um álcool que rimava com veneno
os dias maduravam sortilégios
os meses no meu rosto feito vento

às vezes lapsos dentro do semestre
e o azul pulverizado das manhãs
queimavam nas artérias sol e éter

eu-dezessete e meio, etcétera
qualquer palavra que valesse a pena
o fogo em plena praça. esse poema.

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Numa estrada

a noite é um sopro doce e degenera
o bafo do que ainda vai morrer
o som da roda o asfalto não sossega
e chispa o trilho do trem o trilho do trem
a noite é uma espera fraudulenta
que as horas tecem sempre recomeça
as árvores esgarçam sua pele
com unhas de fumaça
a noite insone torce e mastiga
o som que a boca nunca pronuncia
a noite entrega a carne arrependida
à avidez da lâmina do dia.

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Móbile

estrelas domadas, coelhos
levitam pasmos
cada boca uma vogal.
imóveis, no centro,
cochilam os quartos crescentes
- aparas das unhas de um deus.
nada transborda mas
o ar cheio de jogo
brota gestos do caos.
satélites - onde o teu corpo?
dedos tênues as redes de luz
(entreabrem uns olhos de éden)
entre os cílios, meu suborno.

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© 2006 claudia roquette-pinto | contato