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MARGEM DE MANOBRA | 2006

:: Sítio
:: Os dias de então
:: Na montanha dos macacos
:: Em sarajevo
:: A escada de jacó
:: Margem de manobra
miolo

Margem de Manobra (orelha)

Neste livro, o leitor encontrará certas marcas distintivas da poética de Claudia Roquette-Pinto: a escrita que parece querer representar a temporalidade mesma – lenta e densa- do pensamento, certa depurada educação pelos olhos, e aquela arte da composição que por meio de cortes, parênteses, travessões, variadas vozes, respirações moduladas, aliterações, rimas internas, perfaz como que uma elaborada sintaxe total do poema.
    
Entretanto, desde seu poema inicial – o antológico “sítio” -, este livro acena com a interferência de um plano que vem invadir com força uma poesia, até aqui, de tendência abstratizante. Neste poema, inesperadamente, a morte pousa sobre a cabeça de uma criança como um moribundo. Logo adiante, outro “dois pontos insólito”: uma “flor dilacerada” repete, “entre as coxas”, “o buraco da bala no peito”. Trata-se aqui, portanto, da invasão de uma realidade violenta e exterior aos domínios do pensamento e do poema (cabe aqui perguntarmos: seria essa uma tendência da poesia da década atual, de que este livro seria um dos sinais, a de abrir-se ao mundo, de recuperar certo lirismo e certo sujeito – desprovidos de toda ingenuidade -, indicando uma diferença em relação a uma poética da clôture, através da qual os anos 90 deglutiam e reinventavam Cabral e os concretos?)
    
Com efeito, esse plano traumático do real operará no livro, com relação aos demais planos que nele também surgem com força – notadamente: o erotismo, o amor – sob uma lógica de superposição e deslizamento: a “Margem de manobra” é corpo, mas corpo que se insere num real incontornável. Superposição que encontramos na própria polissemia de alguns títulos, como “Mira” e “Sítio”: deslizamento que faz com que uma cor, “Azul”, signo em princípio daquela educação depurada dos olhos, torne-se inesperadamente um genocídio por cianeto: superposição, finalmente, que atinge sua realização mais condensada em extraordinários poemas como “Na Montanha dos Macacos” e “Os dias de então”, em que se fundem pulsões de vida e de morte, uma baioneta adentra uma barriga como um pênis uma vagina, as rosas no jardim de Kinneys misturam-se ao urânio 238 que causa anomalias genéticas em várias gerações.
    
Em meio à tal violência, produzindo o registro tensional desse livro, muitos e belos poemas de intenso erotismo – “O primeiro beijo”, “Kit e Port”, “Homem: Modo de Abrir” - onde encontramos aquelas imagens exatas (pois a poesia de Claudia é também uma poesia das sensações) como um “coração, fosforescente, no escuro”.

Francisco Bosco

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Sitio

O morro está pegando fogo.
O ar incômodo, grosso,
faz do menor movimento um esforço,
como andar sob outra atmosfera,
entre panos úmidos, mudos,
num caldo sujo de claras em neve.
Os carros, no viaduto,
engatam sua centopéia:
olhos acesos, suor de diesel,
ruído motor, desespero surdo.
O sol devia estar se pondo, agora
_ mas como confirmar sua trajetória
debaixo desta cúpula de pó,
este céu invertido?
Olhar o mar não traz nenhum consolo
(se ele é um cachorro imenso, trêmulo,
vomitando uma espuma de bile,
e vem acabar de morrer na nossa porta).
Uma penugem antagonista
deitou nas folhas dos crisântemos
e vai escurecendo, dia a dia,
os olhos das margaridas,
o coração das rosas.
De madrugada,
muda na caixa refrigerada,
a carga de agulhas cai queimando
tímpanos, pálpebras:
O menino brincando na varanda.
Dizem que ele não percebeu.
De que outro modo poderia ainda
ter virado o rosto: - Pai!
acho que um bicho me mordeu!  assim
que a bala varou sua cabeça?

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Os dias de então

Você se lembra das rosas no jardim de Kinneys ? -você foi tão gentil, e eu pensei:“ Ele é a pessoa mais doce deste mundo”

método aspiração
método dilatação e corte
método cesariana
método envenenamento por sal
(o bebê recebe uma injeção de substância salina
a pele fica queimada pelo elemento cáustico)

“Ele é a pessoa mais doce deste mundo” O muro úmido e forrado de musgo. A glicínia cobria a cerca, a sombra era fresca, e a vida, uma coisa antiga.

bombardearam a cidade
com bombas de fósforo 
os civis atingidos
pegavam fogo e corriam
para o rio e para o mar
(dentro d’água o efeito cessava)
mas assim que emergiam para respirar
seus corpos recomeçavam a pegar fogo

A vida, uma coisa antiga. Meu cabelo estava molhado. Você ficou reverente e eu soube que estava a salvo.

depositado nos pulmões, nos rins,
o urânio 238
emite radiações alfa e beta
que causam, ao longo dos anos,
câncer nos indivíduos expostos
e anomalias genéticas
em seus filhos e netos
a vida média deste urânio é de 4.500 anos.

A salvo, nós dois.  Felizes, dourados - enquanto atravessávamos a rua no caminho de volta para casa.

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Na montanha dos macacos
(área de Da Nang, Vietnã)

Johnny,
esta noite eu descobri tudo que precisava saber pra tirar você da minha vida pra sempre Eles eram muitos, mas estavam descalços ( até agora não sei de onde foi que eles saíram), É neste dia, 7 de Dezembro de 1970, que eu me liberto do seu feitiço Vinham com aqueles olhinhos enviesados brilhando de um jeito esquisito. Você perdeu, meu amor, você perdeu nós duas Parecia um exército de crianças alucinadas, E vai acabar igualzinho ao cara que você mais odeia: seu pai. uns pigmeus ferrados Vai pro inferno, você é igual a ele e merece a mesma vida fudida. – só de olhar me dava calafrio. Ah, meu amor, aquelas fotografias de nós dois... Aí um deles partiu pra cima de mim a praia, os poços , as pedras, Eu meti a baioneta na barriga dele o Museu de Belas Artes - uma, duas, três vezes, os cisnes, os caras, eles tentavam me segurar, ah, Johnny, Johnny... eu tava ligado, Café da manhã na cama, eu não conseguia parar, os nossos banhos na banheira velha, não conseguia parar de pensar no Danny, ali, cortado ao meio, nós dois correndo pela Rua Mason, cada metade jogada pra um lado, andando de moto nas montanhas, a merda e o sangue espalhados por cima de tudo, subindo e descendo as ruas de São Francisco, a cara da mãe dele quando visse o telegrama. ...dançando, trepando, e aquele filha da puta se contorcendo na minha frente, trepando até cair, babando, dando um ronco meio rouco, encharcados no suor um do outro, a boca aberta sem conseguir respirar... Quando penso em você me tocando , me pegando, já te falei que eu tinha uma garota lá em casa? eu fecho os olhos, cara, ela era uma coisa na cama quando outro cara encosta em mim, ou me beija, o chato é que ela achava que ia me prender... ela ficava muito doida de vez em quando, eu fecho os olhos e finjo que é você, o negócio era só falar com ela depois de uma boa trepada, rá, rá, Johnny , seu babaca, eu quero que você se foda, cara, nisso ela era boa, foda-se, foda-se, foda-se ... meu amor pra sempre,

Susie

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Em sarajevo

Na primeira foto ela ri,
selvagem,
e se mistura às amigas.
Um ano mais tarde,
posa com as mãos no colo,
coluna reta,
os pés cruzados pra trás.
Por dentro do uniforme pressente
uma mulher, a passos largos,
galgando as ruas de grandes cidades
_ quem sabe no exterior.
Quando a vi, ali, distraída,
na escada do ônibus escolar,
nada me preparou para suas pernas abertas,
no meio a flor dilacerada
repetindo, entre as coxas,
o buraco da bala no peito:
um dois pontos insólito.

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A escada de jacó

Ela estava rindo
- e gargalhava, até -
antes do choro convulsivo
ante o relance
de céu adquirido - pelo corpo?
Sim, o corpo era o caminho
mas outra coisa nela se movera
e agora erguia seu rodamoinho
pelos canais,
enquanto o corpo, outro,
tiritava, transitava sem piloto
do nulo à súbita doçura,
ao tigre, ao terremoto,
à menina que ela tinha sido
- perto demais da zona de perigo,
perto do exílio -
e, um segundo atrás, a escada,
os anjos subindo.

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Margem de manobra

Eu me cubro com o A da palavra farpada
eu me cubro com o A que traslada
(e a memória é a ignição de uma idéia
sobre dunas de pólvora).

Eu me deito na décima-terceira casa,
eu me deito sob a letra de mãos dadas
M: escondo entre escombros
o sentimento que sobra.

Isto, sim, me comove,
o anel, quando soa
e engloba, envelopa,
remove a pessoa
- letra O, de vertigem e pó,
que soçobra.

Eis o despenhadeiro,
gargalo da fera,
eis o R que trai, apunhala,
desterra - eis o último tiro
sem margem de manobra.

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