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COROLA | 2000

:: O dia inteiro
:: Sob o fermento
:: Desprego as estrelas
:: Conhecer
:: Cães que uivam
:: O náufrago
miolo

Corola  (orelha)

BORBOLETAS DE “WORDSMITH”

1995. Josely Vianna Baptista não pôde ir a Paris participar da Biennale Internationale dês Poètes en Val-de-Marne. Henry Deluy, seu organizador, pedia que convidássemos uma ou outra poeta para substituí-la. Boris Schnaiderman aponta, então, o nome de Claudia Roquette-Pinto. Aderi à proposta sem desconfiar que, mais do que nome, Claudia se converteria em uma “revelação” para mim, embora ela não tenha podido igualmente ir a Paris. Estava grávida, de sete ou oito meses.
    
De novo, Josely, princípio de 1996, insistindo que eu lesse Saxífraga(1993), que não conhecia, como não conhecia Os Dias Gagos (1991). Nessa “época”, arrematava a antologia Nothing the Sun Could Not Explain / 20 Contemporary Brazilian Poets, que sairia, bilíngüe, e com grande impacto aqui também no Brasil em 1997, publicada pela Sun&Moon, de Los Angeles. Não hesitei em incluir Claudia com destaque, pedindo a um dos co-editores, o poeta norte-americano Michael Palmer, que a traduzisse. Em Maio de 1997, fizemos o lançamento de Nothing the Sun..., em São Paulo, com leituras no Memorial da América Latina e no Colégio Logos. Um estrondo. E Claudia passou a contar no rol de seus admiradores com outro amigo, que se tornaria “amigo comum”: o poeta e dramaturgo Douglas Messerli, editor da antologia. Os laços foram, as time goes by, estreitando-se: amiga, interlocutora, “referência”, como a própria Josely, entre o poetas mais novos, surgidos nos anos 90.

Vi, no impulso de Claudia, o desejo, corajoso e “impossível”, de reinventar a poesia e não o de meramente “melhorá-la”. O impulso de ser contemporânea, de estar no seu tempo. Algo raro entre os poetas brasileiros, habitantes do passado, recente ou remoto.
    
Vi, em seu trabalho, também, a consciência de que poesia é – como diz Charles Bernstein – “respiração artificial”, sabendo-se que “antes artificial do que nenhuma”. Aquela respiração que ativa a palavra e a torna necessária. Aquilo que Carlito Azevedo chamou, na orelha de Saxífraga, creio, de “transformações invulgares”.
    
Em Corola, na verdade, um poema longo, reencontro-me com essa “consciência” quando leio, entre muitos exemplos: “... Afago de asas / vento diminuto / paro e flagro o que aflora / (borboleta de Wordsmith), / mas bem mais que meia hora...” ou “... Refém do instante em que escrevo, / de sono aninhado ao desejo, / vizinho do flagrante...”. São questões de representação. A poeta desconfiando, amargamente, da capacidade das palavras... como em: “ ... o que mora em minha boca? / O espinho do cardo. O que suja meus olhos, / alijando a rosa...”.
    
Não hesito, de novo, agora, com Heloisa Buarque de Hollanda, autora da introdução, em afirmar, uma vez mais, que Claudia Roquette-Pinto é uma das maiores expressões da poesia contemporânea brasileira!

Regis Bonvicino | 5 de outubro de 2000

O dia inteiro

O dia inteiro perseguindo uma idéia :
vagalumes tontos contra a teia
das especulações, e nenhuma
floração, nem ao menos
um botão incipiente
no recorte da janela
empresta foco ao hipotético jardim.
Longe daqui, de mim
(mais para dentro)
desço no poço de silêncio
que em gerúndio vara madrugadas
ora branco (como lábios de espanto)
ora negro (como cego, como
medo atado à garganta)
segura apenas por um fio, frágil e físsil,
ínfimo ao infinito,
mínimo onde o superlativo esbarra
e é tudo de que disponho
até dispensar o sonho de um chão provável
até que meus pés se cravem           
no rosto desta última flor.

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Sob o fermento

Sob o fermento do sol, as coisas
desprovidas de peso, as coisas
despovoadas,
o contrário de si mesmas,
todas no exterior.
                                   
Na pele abrasada das coisas
o  pensamento entorna,
não penetra, espalha e
torna a reunir-se
em gotas, um suor.

Quase nada alcança
o par imobilizado
de peixes na água que estaca,
de olhos na mancha
do rosto. À calma estupefata
cascos apondo
um toque de temor.

O tanque dentro do sonho
anel de sombra a memória
na superfície estirada
arbitrariamente branca
- e o áspero das cigarras
sob o sol narcotizante.

Pequeno retângulo em sombra
projetado pela casa
à volta ondulava a campanha
o lamento das cigarras
era como um estertor.

Amarela dos restolhos, negra
dos restos queimados
a intervalos absortos as flores
de ouro as palavras cortam
a paisagem, impostoras.

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Desprego das estrelas

Desprego as estrelas,
deixo que elas
rolem céu abaixo
soltas do seu facho
frio, iridescente,
ricochete rente
ao chão adormecido.
Cobres,
estrelas de pobre,
moedas
que dobram na queda,
vão metal.
O mesmo que falta
às nossas mais altas
intenções, e nos deixa
(é sempre a mesma queixa)
nesse vai-da-valsa :
com as mãos repletas
de palavras certas,
de moedas falsas.

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Conhecer

Conhecer,
não estender uma idéia
na mente, não como ler
- a não ser como quem, lendo, sente
o bafo das palavras rente
ao rosto,
prende a respiração.
Tocar, percorrer o encaixe,
de cima abaixo,
de trás pra frente,
sem um senão.
Como a palma da sua mão,
a disposição dos pertences num quarto,
os nós, renitentes, nos sapatos,
a voz
de quem se ama,
quando essa mesma voz derrama numa mentira.
Chão indiferente em que se pisa,
exilado da inocência.
Pão, que se come,
de abraços,
repleto de embaraços,
no resgate de uma ausência.
Água ardente do que se experimenta,
lívido, sozinho
(o quem de dentro
não perfaz caminhos:
tremula
em seu remanso
fogo manso
que o dia não anula).

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Cães que uivam

Cães que uivam, não para a lua
- ao meio-dia.
Cães, numa angústia canina,
Rasgando o ar empoçado
Na cuba de marasmo
Que flutua entre as esquinas.
Rasgam melhor com a voz
do que os dentes
a coisa nua, doente,
que o sol oculta
mas presencia.
Está dentro ou arqueia
Sobre a cidade dopada
E cada vez mais estranha?
Lateja sob o tampo
Da tarde que estupora
(no céu o avião pôs um risco)
vermelha,
de entranhas de fora.

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O naufrago

No escuro sobre o vazio
sem o feroz feitiço
do exato, exausto
me estico no penhasco,
roto, desacreditado
de um possível ganho no encalço
de tudo o que é fugidio.
Eu me desaproprio
daquilo que tinha por meu,
me escuto uma primeira vez,
estrídulo, estranho.
Se desabotôo por dentro,
o frio, ao menos,
me dá a impressão que eu existo.
Nu e em desabalo
(íntimo, que não me movo)
desfio o percurso de novo,
procuro nos intervalos
onde dorme a explicação
o hiato de titubeio,
o desvio inevitável.
Até isso que formulo
se esboroa e se anula
agora que o enuncio.
Nada me avia.
Queimo até o fim o pavio.

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