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Enviado por Ana Beatriz Guerra
em 13/9/2007Dizer o poema

Quer saber onde fica o hype da Bienal? Esqueça, porque hype mesmo é não ser hype.

Fui conferir a primeira sessão do Jirau de Poesia (Pavilhão Laranja), com Alberto Pucheu, Antonio Cícero, Chacal, Claudia Roquette-Pinto e Gabriel, O Pensador, mediados por Claufe Rodrigues

Lá encontrei, como diria Claudia, "poetas que são deformidades".

Difícil destacar momentos, mas, lá vai: os "poemas boxeadores" de Alberto Pucheu (baseados mesmo em frases de lutadores), Chacal, sempre gênio, perguntando "quem quer saber de um poeta na idade do rock?" e textos inéditos de Gabriel, O Pensador, um deles, diz ele, escrito nesta madrugada sobre "uma calcinha no meio do caminho" e outras intimidades, e um segundo, inspiradíssimo em literatura de cordel e repentistas, que ele pediu para que não gravássemos, pois será futuramente musicado.

Falando em gravar, as máquinas fotográficas e celulares do público brilhavam mais que os flashes dos fotógrafos com crachá de imprensa como eu. Chacal tirou fotos dos colegas. Inacreditável a interação do público com os poetas, eram pessoas realmente empolgadas e interessadas, gente de todas as idades, classes sociais e estilos, variando dos bonés, passando pelos dreadlocks e chegando aos óculos na cabeça. Um fã mais ardoroso, ao final da apresentação de Claudia Roquette-Pinto, exibiu um cartaz com os dizeres "Claudia, eu te amo". Olha, posso estar enganada, mas esse tipo de coisa não acontece no Café Literário, viu?

Conversando com o mediador Claufe Rodrigues, que vai dizer seus poemas no mesmo Jirau no sábado 22 com Fernando Py, Jorge Salomão e Viviane Mosé, ficou claro que o espaço inaugurado em 2005 é sim mais aberto à experimentação.

O poeta apontou a diversificação do público, um público que tem menos acesso à poesia ou que gosta de poesia, mas não tem o hábito de freqüentar os saraus da Zona Sul. Na Bienal, ele frisa, é aberto um espaço para que os leitores da Zona Oeste da cidade tenham um panorama da produção poética atual, selecionada e de qualidade, mas sem afetações midiáticas.

Claufe observa a grande presença de estudantes, que costumam até achar que a poesia acaba no modernismo dos anos 1930, que nossos contemporâneos não são poetas, mas a verdade é que a poesia está viva e fala do nosso cotidiano.

O Jirau é o espaço perfeito para o poder da palavra entrar em ação, a palavra sem cenário, sem a heterogeneidade de outros meios.

A poesia, dizem, é para poucos. Mas, a julgar pelo o que vi e ouvi esta noite, essa história vai mudar.

Se eu pudesse, iria no Jirau todo dia.